16 de out de 2009

O espelho

Ela grita, adormecida renasce.
A escrita agora está calibrada.
Vamos dar uma volta?
Eu já estava com saudades.
Dormiste minha cara amiga,
Hibernaste por longos invernos.
Mas eu não tive medo.
Sabia do teu retiro,
Sabia do teu retorno.
Você me dá um afago e me cospe depois.
Conheço-te.
Vamos dar uma volta?
Eu já estava com saudades.
Da tua boca broto.
Ela arrota-me satisfeita.
Comeu-me inteira.
Mas eu não tive medo.
Sabia do teu desejo,
Sabia da sua fome.
Você me dá um afago e me cospe depois.
Reconheço.
Vamos dar uma volta?
Eu já estava com saudades.

15 de out de 2009

Os demiurgos

Ah, os homens do mundo!
Físicos, químicos, poetas...
Demiurgos da liberdade e da razão.
Constante dinâmica do atropelamento,
Três milhões de sentimentos passados a ferro.
Mãos no queixo, cotovelo na mesa.


Olho o horizonte,
Milhares de luzes cintilam,
Mais no chão do que no céu.
Onde estão as estrelas cadentes?
Agora se enfileiram no trânsito,
Nas lanternas, nos semáforos,
Nos poucos instantes em que a cidade para.

Isto parece o mundo de hoje,
Mas é o mundo de cem anos atrás.
Os sentimentos de hoje parecem só meus,
Mas são os de cem anos atrás.
Quanto sentimento há nos homens do mundo!
Os Demiurgos da liberdade e da razão.


10 de out de 2009

A casa da Varanda

Tive um amigo que me escrevia pensamentos. Mais Do que isto, me descrevia suas imagens que brotavam da sua cabeça, preenchendo as madrugadas e meus emails com histórias mirabolantes. Ele dizia que tinha uma casa que sempre visitava no pensamento, a casa da varanda.

Nela viviam as pessoas que ele mais amou, ama e amará na vida. Nela havia festas intermináveis onde a varanda se esticava à medida que as pessoas se multiplicavam nela. Todas estas pessoas coexistiam em um tempo comum onde não havia horas, nem meses, nem anos... E quando ele me contava, eu tinha certeza de que ela existia sim, toda de madeira no estilo colonial e a uma quadra de distância do mar. Unidade de distância esta que ele inventou também.


Não me lembro direito da história, nem bem do amigo agora. Incrível como isto nos acontece depois de um tempo, ou pelo menos deste tempo que temos conhecimento. Mas me lembro desta proeza nata, deste desprendimento, desta possibilidade criativa contagiante e da sensação que a história causava em mim.

E por causa da casa da varanda dele, deste fragmento é que não acredito em tudo que o meu olho vê e que me parece real. Porque hoje, só me lembro da sensação, da única coisa que existe sem se importar com o que é ou não real.


9 de out de 2009

A mulher dos sapatos vermelhos (1)

O trêm estacionou na estação, desta vez na plataforma um. Fiquei a observar. O homem de chapéu leva uma mala pequena, uma moeda no bolso, uma fotografia, dois travesseiros e um bilhete de ida e volta...Ele se vai no trêm das onze e meia...



Aliás, ele estava à rodar sem sair do lugar, tentando decidir alguma coisa, pensando na viagem de volta para o lar em como seriam as coisas dali para frente. A mulher dos sapatos vermelhos, imóvel na plataforma, morde a unha do indicador pensativa... o arrulho dos pombos da estação incomodava até o pipoqueiro...seus olhos olhavam os dele, mirando desfoque no nada e enxergando o outro lado da sua própria cabeça. Num breve instante, viu sua história transpassar por dentre seus órgãos, toda aquela sensação a impediu de encenar qualquer gesto, uma palavra, nem um som sequer.



A luz do sol da manhã ofuscava minha visão...fiquei a observar aquela velha cena.
Ele esboçou um sorriso apreensivo pela sua pequena ação...ela ficou a imaginar se aquele gesto já havia sido decidido por ele antes, ou se estava tentando decidir junto dela. Continuou atônita...havia um congestionamento em suas entranhas que buzinavam na sua cabeça, ela então parou com um ar melancólico.



O homem de chapéu fechou o sorriso e ao inclinar de leve a cabeça, tentou enxergar alguma coisa, qualquer coisa naqueles olhos nebulosos...ele também parou desconsertado.
A mulher dos sapatos vermelhos respirava, de certo, ainda vivia! muito embora não estivesse vendo nada. Pensou em quantas vezes esteve numa plataforma como aquela, estranhava ser ela sempre a parte que ficava. Lembrou-se de todos os trêns que já vira na vida... nenhuma das vezes pode decidir algo, sentia medo daquilo tudo, a situação lhe parecia meio mórbida. Segurava um guarda-chuva, embora fizesse sol.



O homem do chapéu fechou bem os olhos...talvez tudo aquilo sumisse, talvez acordasse de um breve sonho, não queria ver aqueles olhos nebulosos. Sentiu medo da mulher dos sapatos vermelhos.



Ele também se lembrou...já vira olhos nebulosos como aqueles em outras pessoas, uma vez ao mirar-se no espelho descascado do banheiro notou que também os tinha. Será que também tinha medo de si mesmo?!

Se aquilo fosse um sonho já estava ficando confuso demais... precisava dizer, precisava fazer alguma coisa, resolveu abrir os olhos bem devagar, um de cada vez... Mas antes, pensou ele, vou ouvir o que se passa.



Imagino que sentisse algo como coragem misturada com uma dose e meia de receio. Aos poucos, começou a escutar os batuques dos passos apertados. Acontecem passos apertados em todos os lugares, sussurrou ele... Logo, passou a ouvir o som das catracas, das rodinhas das malas abarrotadas, dos carregadores mal-humorados da estação, dos badulaques das madames pontiagudas, o barulho da cidade bombava! Agora ouvia até o tic-tac do relógio da estação e as vassouras nervosas no calçadão...



Ao abrir o primeiro olho, notou o tamborilar frenético do seu coração. Começou a sentir um perfume estranho no ar, suave e levemente temperado. Era o perfume da mulher dos sapatos vermelhos, lembrava-se bem...



De repente, todos os cheiros e gostos vibravam na sua boca, pipoca, lavanda, charutos cubanos... uma miscelânia. Decidiu abrir os olhos de uma vez por todas.





(continua...)